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sexta-feira, 31 de agosto de 2012
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Casamento (Adélia Prado)
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Moça na sua Cama (Adélia Prado)
Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Corridinho (Adélia Prado)
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
domingo, 26 de agosto de 2012
A Escrivã na Cozinha (Adélia Prado)
Só Deus pode dar nome à obra completa
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia, um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo para torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas para dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos—,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
sábado, 25 de agosto de 2012
ADÉLIA PRADO
Filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa, Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Na rua Ceará daquela cidade do interior mineiro, Adélia Prado leva uma vida pacata. Inicia os estudos no Grupo Escolar Padre Matias Lobato. Em razão do falecimento da mãe em 1950, Adélia escreve, no mesmo ano, os primeiros versos. No ano seguinte iniciou o curso de magistério na Escola Normal Mário Casassanta, terminando-o dois anos depois.
Em 1955, começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho e três anos depois, casa-se com o funcionário do Banco do BrasilJosé Assunção de Freitas, com teve cinco filhos: Eugênio, Renan, Sarah, Jordano e Ana Beatriz. Em 1972, morre seu pai, um ano depois, forma-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis e neste mesmo ano seus poemas são lidos por Carlos Drummond de Andrade, o qual declarava "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".
Aos 40 anos publica seu primeiro livro, Bagagem, após indicação de Drummond à Editora Imago e em 1976, lança Bagagem no Rio de Janeiro, com a presença de Juscelino Kubitschek, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant'Anna, Nélida Piñon, dentre outros. Em 1978, publica O Coração Disparado, o qual recebe o Prêmio Jabuti, no ano seguinte lança Soltem os Cachorros, e em seguida dirige a montagem de Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna pelo grupo de teatro amador Cara e Coragem.
Em 1981, publica Cacos para um Vitral e Terra de Santa Cruz; neste mesmo ano é apresentado, no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Princeton, Estados Unidos, o primeiro de uma série de estudos sobre a obra. Entre 1983 e 1988, exerce as funções de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura de Divinópolis, em 1984, publica Os Componentes da Banda e no ano seguinte, participa de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, realizado em Portugal, e do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América, em Cuba. Em 1987, estreia o espetáculo Dona Doida: um Interlúdio, baseado em textos de livros da autora, encenado por Fernanda Montenegro, no Teatro Delfim, no Rio de Janeiro.
Um ano depois, publica A Faca no Peito e participa da Semana Brasileira de Poesia em Nova Iorque, em 1991, lança Poesia Reunida e três anos depois, O Homem da Mão Seca, após o qual, a escritora "emudeceu sua pena", fase posteriormente explicada por ela mesma como "um período de desolação. São estados psíquicos que acontecem, trazendo o bloqueio, a aridez, o deserto". Oráculos de Maio, uma coletânea de poemas, e Manuscritos de Felipa, uma prosa curta, marcaram o retorno, ou a quebra do silêncio, ambos de 1999; lançou ainda, Quer Minha Mãe (2005) e A duração do dia (2010).
Obras
- Poesia
Terra de Santa Cruz, 1981
O Pelicano, 1987
A Faca no Peito, 1988
Oráculos de Maio, 1999
A duração do dia, 2010
- Prosa
Cacos para um Vitral (romance), 1980
Os Componentes da Banda (romance), 1984
O Homem da Mão Seca (romance), 1994
Manuscritos de Filipa (romance,), 1999
- Antologia
Palavra de Mulher, 1979
Contos Mineiros, 1984
Poesia Reunida, 1991
Antologia da Poesia Brasileira, 1994
Prosa Reunida, 1999
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